De posto de saúde a centro de atividade física

3/abr/2017

Dona Benedita, que há anos convive com doenças crônicas como diabetes, colesterol alto, e hipertensão, atestou na prática que prevenir é melhor do que remediar. Bastou começar a praticar atividades físicas de forma regular para ver o número de comprimidos que ingere diariamente cair de 12 para 6.

Sua colega Lourdes de Fátima teve parada respiratória e chegou a ficar em coma em 2015. “Sempre fui sedentária, sou artesã, trabalho 12 horas por dia sentada. Agora faço ginástica aqui no posto, melhorei a disposição, até minha cor mudou.”

Em comum, ambas descobriram que a Unidade Básica de Saúde – ou posto de saúde, como é popularmente conhecida – pode  adquirir novo significado: de um lugar vinculado comumente a doenças e tratamentos para um espaço de convivência, disposição e prazer.

Essa é a proposta do Programa Promoção de Atividades Físicas em Unidades Básicas de Saúde (PAF-UBS), projeto de extensão do curso de educação física da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro (SP) e do curso de Educação Física do IFSULDEMINAS- Campus Muzambinho-MG, que oferecem sessões de atividades físicas regulares e gratuitas nas UBS. A iniciativa foi anunciada em dezembro passado como uma das três vencedoras do Prêmio Mais Movimento, realizado pelo PNUD  com o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a importância da prática de atividade física.

O Programa, explica Eduardo Kokubun, vice-reitor da Unesp, foi criado em 2001 a partir da solicitação de uma gerente de UBS em Rio Claro para que se realizassem palestras

educativas no local. “Notamos que havia muitas mulheres idosas obesas, porém dispostas a praticar atividades físicas. Como a UBS não tinha como fazer exames diagnósticos, pensamos em uma estratégia de fazer exercícios simples, que parecessem atividades do dia a dia, ali mesmo.”

A iniciativa surgiu como pioneira na intervenção para a promoção de saúde nas UBS, antes mesmo da prática corporal ser incluída na Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS), em 2006, e da inserção do profissional de educação física no contexto da Atenção Básica da Saúde, em 2008.

Vale ressaltar que é nas unidades básicas de saúde onde está o público que mais precisa de atenção à saúde preventiva e, ao mesmo tempo, o que menos pratica atividades físicas: pessoas com baixo nível socioeconômico, notadamente mulheres idosas.

As aulas, conduzidas por profissionais e estudantes de educação física ligados a universidades ou contratados pelo município, ocorrem duas vezes na semana e têm duração de 60 minutos cada uma, englobando atividades de coordenação, agilidade, força muscular, resistência cardiovascular e equilíbrio, além de exercícios de integração e palestras de saúde preventiva. As despesas do programa são financiadas pelas prefeituras locais e agências de fomento à pesquisa, além de apoios pontuais de empresas locais e da própria comunidade nos eventos.

Se, de um lado, o programa prima pela simplicidade – as aulas acontecem em estacionamentos, jardins ou garagens das UBS ou locais vizinhos, sem equipamentos sofisticados (utilizam-se meias, bambolês e garrafas PET com areia, por exemplo) –, de outro, todas as ações têm forte base científica, com pesquisas acadêmicas que as fundamentam, além da discussão de casos, planos de aula e experiências no laboratório da universidade. Por fim, é calcado em um trabalho multiprofissional, em que profissionais de educação física atuam em parceria direta com médicos, enfermeiros, nutricionistas e agentes de saúde ligados à unidade de saúde.

Assim, a iniciativa facilita e amplia o acesso à atividade física ao resolver três obstáculos: falta de tempo, dinheiro e acesso logístico. O único critério de seleção para a articipação é ter avaliação clínica aprovada por profissionais da própria unidade de saúde.

Atualmente são cerca de 460 participantes em 18 UBS – sendo 5 no município de Muzambinho (MG), para onde o programa foi ampliado após os resultados positivos colhidos em Rio Claro.

Os benefícios vão muito além da já cientificamente comprovada melhora do perfil lipídico, glicêmico e peso corporal dos participantes: é notável a melhora nas variáveis sociais e

psicológicas, reforçando a aderência de participantes, e um maior envolvimento comunitário em relação à apropriação de questões de saúde pública, além do alto nível engajamento dos profissionais de educação física e de saúde envolvidos. Ou, como conta a artesã Maria: “Aqui, conheci várias senhoras do bairro, já vendi dois jogos de tapete de banheiro, e um deles vai até para Portugal! Já fizemos uma feijoada com mutirão para pintar o posto de saúde. A gente participa dos conselhos de saúde e briga se tentarem parar com as aulas”.

Chancela

Por se tratar de um modelo exemplar de promoção da prática regular da atividade física, atendendo aos critérios de inovação e originalidade, impacto qualitativo e acesso universal e trabalho em rede, escala e potencial de multiplicação, o PAF-UBS sagrou-se como uma das três iniciativas vencedoras do Prêmio Mais Movimento, do PNUD, concorrendo com mais de 140 inscrições de todo o Brasil. 

“Hoje, deparamos com uma epidemia de inatividade física, no Brasil e no mundo. A população fisicamente ativa vem decaindo ano após ano. Precisamos acabar com esse ciclo. Uma das formas de tornar o Brasil mais ativo é incorporar o movimento ao dia a dia dos brasileiros, de forma criativa e prazerosa. Com isso, não melhoramos somente a capacidade física da população, mas também suas habilidades intelectuais, sociais e emocionais”, afirma Niky Fabiancic, coordenador-residente do Sistema das Nações Unidas no Brasil e representante-residente do PNUD no Brasil.

A iniciativa foi reconhecida publicamente em uma cerimônia de premiação em 2 de dezembro de 2016, no Museu de Arte do Rio (MAR), no Rio de Janeiro. A jornalista Fernanda Gentil foi a mestre de cerimônias do evento.

Além de receber um troféu e um certificado de chancela do PNUD, o programa de extensão da Unesp terá direito a um kit de divulgação com press-release, book de fotos profissionais, vídeo editado e parecer de avaliação externa sobre a iniciativa. Ademais, o PNUD fará a divulgação das iniciativas em seus canais de comunicação, com o objetivo de disseminar a prática e fazer com que ela se multiplique em outros contextos e regiões. 

Os ganhadores foram selecionados por um júri independente, composto por representantes do PNUD, de outras agências internacionais, do governo, de organizações da sociedade civil e do setor privado. 

Sobre o Prêmio Mais Movimento

O Prêmio Mais Movimento tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre a  importância da prática de atividade física. Segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas 30% da população é fisicamente ativa. Desses, somente entre 2% e 5% fazem exercícios com periodicidade  ideal (30 minutos de atividade por dia). No Brasil, cerca de 300 mil pessoas morrem por ano de doenças associadas diretamente à inatividade física. No mundo, esse número chega a 5,3 milhões de mortes por ano. De acordo com estudo desenvolvido pelo Ministério do Esporte, estima-se que o percentual de brasileiros envolvidos com esportes ou atividades físicas é de apenas 55% (Diesporte, 2015). No conjunto das capitais brasileiras, pode-se verificar que a frequência da prática de atividade física é de 41,6% entre homens, com percentual ainda mais baixo entre as mulheres, de 30,4% (Vigitel, 2014).

O Prêmio Mais Movimento é uma das iniciativas do PNUD para combater essa epidemia. O PNUD vem trabalhando para promover e reconhecer o esporte e a atividade física como fatores de desenvolvimento humano no Brasil, atuando junto a diferentes setores para fomentar ações nesse âmbito na agenda nacional. Nesse sentido, o Prêmio foi lançado com o intuito de valorizar iniciativas que promovam experiências positivas para crianças desde cedo e/ou integrem a atividade física no dia a dia das pessoas em todas as faixas etárias.