Parquinhos para além dos balanços e gangorras

4/abr/2017

“Foi a primeira vez que levei Maya nesse parquinho. Quando ela viu de longe, largou minha mão e correu em direção a ele. Quase pude ver um balãozinho na cabeça dela de ‘Cadê a casinha de madeira com o escorregador e o balanço? ’. Logo depois, ela disse: ‘Esse escorregador tá errado’. Pensei: 'Ela já está condicionada a achar que todos os parquinhos são iguais”. 

O depoimento de Carolina Lopes sobre a experiência de sua filha em um dos sete parquinhos criados pelo Erê Lab ilustra a realidade no Brasil em relação à utilização de espaços lúdicos públicos que acabam condicionando as crianças a um certo tipo de brincar. Os poucos espaços existentes seguem, desde a década de 1970, a mesma tipologia composta por cinco equipamentos básicos: gira-gira, trepa-trepa, balanço, gangorra e escorregador.  

O Êre Lab surgiu, assim, na perspectiva de inovar o conceito de espaços lúdicos para crianças de todas as idades, propondo-lhes novas formas de brincar. A ideia começou a amadurecer em 2013, na época em que as manifestações tomaram as ruas do país. Inspirado pelo nascimento de seu primeiro filho, o artista plástico Roni Hirsch refletiu sobre como seria importante para a geração de seu filho a construção da cidadania a partir de experiências enriquecedoras por meio da apropriação do espaço público. Assim, contando com seus 20 anos de experiência utilizando arte e design para a transformação social, Roni se debruçou sobre as questões da primeira infância, a cidade, o lúdico e o Brasil. Desse mergulho, ele escreveu o Manifesto pela criança do Século XXI e, em seguida, em parceria com a produtora Helô Paoli, fundou o negócio social Erê Lab.

A iniciativa se apoia em quatro pilares: criança, sustentabilidade, cidadania e brasilidade. Por meio de seus brinquedos e parquinhos, tem como objetivo criar espaços de desenvolvimento da capacidade motora e cognitiva das crianças por meio de equipamentos não convencionais que incentivam um brincar livre conectado aos movimentos da e na natureza. A ideia é estimular as crianças a procurarem novas maneiras de interagir com o brinquedo. O pequeno José, de 9 anos, entrevistado na Vila Olímpica Mané Garrincha, declarou que gostava dos brinquedos porque era “diferente de tudo o que já tinha visto”. Outro diferencial da iniciativa é que, ao criar brinquedos rentes ao chão, possibilita  crianças menores terem autonomia para brincar sozinhas. Alguns exemplos são o escorregador no formato de uma montanha e o trepa-trepa inspirado nas raízes retorcidas de árvores de manguezais.

Desde 2014, o Erê Lab realizou mais de 40 ações temporárias com mais de 20 mil crianças, inaugurando o primeiro espaço permanente no Largo da Batata, em São Paulo, em dezembro de 2015. Desde então, lançaram um novo espaço no Largo do Paissandu, na capital paulista, e em cinco espaços nas comunidades de Engenho de Dentro, Caju, Mato Alto e Acari, além do bairro Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Em algumas áreas onde estão instalados na capital fluminense, os parquinhos são a única opção de lazer segura para os moradores em um raio de 10 quilômetros e, durante o fim de semana, se tornam um importante espaço de convívio familiar e comunitário. Ao valorizar o espaço público, o Erê Lab também tem como objetivo resgatar a história do local no qual estão inseridos. Na elaboração do parquinho do Largo do Paissandu, localizado no centro de São Paulo, priorizaram-se brinquedos em diferentes tons de azul e o batizaram de “Ah! Lagoas!” para homenagear o antigo nome da praça (das Alagoas) por lá haver inúmeras nascentes de lagoas. Os brinquedos possuem um design original e de autoria própria no qual busca valorizar aspectos da cultura brasileira – a tradicional casinha do parquinho se torna uma casa palafita, por exemplo – assim como utilizar materiais sustentáveis e recicláveis.

Apesar de ser uma iniciativa recente, a empresa tem como uma de suas prioridades a validação de um modelo de escala sistematizado, mais compacto e de baixo custo para se tornar mais competitiva. Para isso, conta com o apoio da Artemisia, uma das principais aceleradoras de negócios sociais. Também conta com o suporte de duas organizações consideradas as maiores referências em primeira infância no país: Instituto Alana e Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

Para dar escalabilidade a sua iniciativa e garantir que o projeto chegue em mais áreas vulneráveis, o Erê Lab prevê a criação de um fundo social no qual até 10% do valor de um projeto realizado para a iniciativa privada será utilizado na criação de um espaço em alguma região vulnerável. Há também planos de criar o Erê Lab Educação, no qual a construção de tais espaços é elaborada conjuntamente com a comunidade que receberá a instalação.

Chancela

Por se tratar de um modelo exemplar de promoção da prática regular da atividade física, atendendo aos critérios de inovação e originalidade, impacto qualitativo e acesso universal e trabalho em rede, escala e potencial de multiplicação, o Erê Lab sagrou-se uma das três iniciativas vencedoras do Prêmio Mais Movimento, do PNUD, concorrendo com mais de 140 inscrições de todo o Brasil.

“Hoje, nos deparamos com uma epidemia de inatividade física, no Brasil e no mundo. A população fisicamente ativa vem decaindo ano após ano. Precisamos acabar com esse ciclo. Uma das formas de tornar o Brasil mais ativo é incorporar o movimento ao dia a dia dos brasileiros, de forma criativa e prazerosa. Com isso, não melhoramos somente a capacidade física da população, mas também suas habilidades intelectuais, sociais e emocionais”, afirma o coordenador-residente do Sistema das Nações Unidas no Brasil e representante-residente do PNUD no Brasil, Niky Fabiancic.

A iniciativa foi reconhecida publicamente em uma cerimônia de premiação em 2 de dezembro de 2016, no Museu de Arte do Rio (MAR), no Rio de Janeiro. A jornalista Fernanda Gentil foi mestre de cerimônias do evento.

Além de receber um troféu e um certificado de chancela do PNUD, o negócio social teve direito a um kit de divulgação com press-release, book de fotos profissionais, vídeo editado e parecer de avaliação externa sobre a iniciativa. Ademais, o PNUD está fazendo a divulgação das iniciativas em seus canais de comunicação, com o objetivo de disseminar a prática e fazer com que ela se multiplique em outros contextos e regiões.

Os ganhadores foram selecionados por um júri independente, composto por representantes do PNUD, de outras agências internacionais, do governo, de organizações da sociedade civil e do setor privado.