Secretário Geral afirma que o combate à mudança do clima é a principal forma de preservar a paz

5/abr/2017

António Guterres também pediu que os países se esforcem para conter o aumento da temperatura global. Foto: UN Photo.

Sr. Presidente da Assembleia Geral,
Sra. Patricia Espinosa, Secretária Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima,
Excelências,

Senhoras e Senhores,

Eu estou contente em falar nesta importante reunião, e eu agradeço o Presidente da Assembleia Geral pela convocação.

Eu tenho duas mensagens simples hoje.

Primeiro, mudança do clima é uma ameaça sem precedentes e crescente – para paz e a prosperidade e mesmo em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Segundo, enfrentar a mudança do clima é uma imensa oportunidade que não podemos nos dar o luxo de perder.

Primeiro, deixem-me delinear brevemente a questão da ameaça.

Concentrações atmosféricas de dióxido de carbono continuam a aumentar. Agora elas estão superando o limite de 400 partes por milhão.

O ano passado foi mais uma vez o mais quente registrado. A década  passada foi também a mais quente registrada. Gelo marinho está no nível histórico mais baixo; o nível dos oceanos está o mais alto da história.

A tendência é incontestável. Não há mais nenhuma dúvida. A atividade humana está causando um perigoso aquecimento global.

Isto não é uma questão de opinião. Cientistas ao redor do mundo tem soado o alarme por anos. O trabalho deles vem sendo revisado e endossado por todos os governos do mundo por meio do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.

Nós estamos lidando com fatos científicos, não políticos. E os fatos são claros. Mudança do clima é uma ameaça por si só, e multiplicadora de muitas outras ameaças.

Nós enfrentamos sérios riscos em toda a Agenda 2030.

Segurança alimentar está sob ameaça ao redor do mundo devido ao aumento das secas. Com a insegurança alimentar, nós devemos acrescentar a insegurança econômica visto que a escassez de alimentos básicos causa o aumento de preços.

A insegurança da água também está crescendo ao redor do mundo. Um terço da população mundial já vive em países que vivenciam tensões hídricas. Como a água fica mais escassa, ameaça se tornar uma catalisadora para conflitos.

Mudança do clima é uma ameaça para os meios de subsistência, para a propriedade e para os negócios, e não é menos ameaçador para companhias de seguros.

O aumento do nível dos aceanos ameça a existência de nações e cidades de baixo relevo, de Miami a Mumbai.

Os mares também são afetados pela acidificação e a descoloração de corais, ameaçando toda a cadeia de alimentos marinhos.

Todos esses riscos significam que a pobreza irá piorar e as pessoas serão forçadas a se mudarem de territórios degradados para outras cidades e nações. É por isso que mentes militares ao redor do mundo de fato tratam a mudança do clima seriamente como multiplicadora de ameaças com consequências diretas para a paz e a segurança.

Então quando vemos uma ameaça, o que devemos fazer? Está muito claro que nós devemos agir.

A ação vem acontecendo lentamente, mas apenas a um ano, em Paris, o mundo agiu decisivamente.

O Acordo de Paris sobre mudança do clima é único em sua transversalidade. Cada um dos governos o assinou.

Depois que foi adotado em dezembro de 2015, o Acordo entrou em vigor em menos de um ano. Até hoje mais de 130 partes o ratificaram, e os números aumentam a cada mês. As Nações Unidas está comprometida a ajudar todos os Estados membros a implementar o Acordo de Paris e a Agenda 2030.

Os países que apoiaram o Acordo de Paris são os mesmos que adotaram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – eles abrangem todos os Estados membros das Nações Unidas.

E o motivo para o consenso é claro: todas as nações reconhecem que a implementação da Agenda 2030 está interligada com a limitação do aumento da temperatura global e o aumento da resiliência do clima.

Todo mês, cade vez mais países estão transformando seus compromissos em planos de ação nacionais para o clima.

Cidades e negócios também estão tomando a liderança.

E por quê? Eles não somente reconhecem a ameaça, eles também enxergam os claros benefícios de trabalharem para limitar o aumento da temperatura global do planeta.

E eles são a evidência que, mesmo se alguns governos nacionais recuarem nos comprometimentos, os esforços conjuntos de autoridades sub-nacionais, empresas e sociedade civil criam um momento que não se pode parar.

Eles sabem que acão para o clima não é somente a coisa certa a fazer, é bom para os negócios e é a linha de base.
Não somente a ação agora é muito mais barata do que o custo da inação, mas pode destravar um vasto potencial de crescimento econômico em todas as regiões para todas as pessoas.

E esse é o meu segundo ponto. Combater a mudança do clima é uma oportunidade tremenda.

Esse é o motivo pelo qual vemos quase diariamente comunicados sendo feito por países, abrangendo desde projetos de energia renovável até leis relacionadas ao clima, elaboradas para manter o aumento da temperatura global abaixo do dois graus Celsius e o mais próximo possível de um grau e meio. E isso somento será alcançado por uma imensa ação conjunta.

No início deste mês, Singapura anunciou planos de introduzir uma taxa de carbono em 2019 para reduzir as emissões e estimular a inovação e tecnologia limpa.

E, enquanto os ministros de finanças do G20 recentemente omitiram menções à mudança do clima, eu entendo que a tarifação do carbono será um elemento chave da próxima Cúpula do G20 na Alemanha, em poucos meses.

Em março nós soubemos que [o uso da] a energia solar cresceu 50 por cento em 2016, com a liderança da China e dos Estados Unidos. Globalmente, investimentos cresceram seis vezes em uma década, para quase 300 bilhões de dólares. A aceleração foi particularmente marcante em países emergentes.

Ao redor do mundo, mais da metade da capacidade de geração em novas produções de energia vem de fontes renováveis. Na Europa, o número é superior a 90 por cento.

Nos Estados Unidos e na China, empregos relacionados às novas fontes de energias renováveis agora ultrapassam aqueles criados nas indústrias de óleo e gás. Globalmente, mais de oito milhões de pessoas trabalham no setor de fontes renováveis.

Este ano, a Arábia Saudita anunciou planos de instalar 700 megawatts de energia eólica e solar. O Banco de Desenvolvimento da Ásia assinou um novo pacote de financiamento, no valor de 109 milhões de dólares, para geração de energia geotérmica na Indonésia ocidental, apoiado pelo Japão. E especialistas em indústria previram que a capacidade [de geração de energia] solar da Índia irá dobrar em 2017 para 18 gigawatts.

Então a tendência é clara, o mundo está movendo para uma economia verde. Governos e empresas entendem cada vez mais que não há contradição (“trade-off”) entre um ambiente saudável e uma economia saudável.

Nós podemos ter ambos.

Negócios verdes são bons negócios.

Fontes renováveis são um exemplo. Eficiência energética é outro.

A Agência de Energia Internacional identifcou que investir em eficiência energética pode estimular em 18 trilhões de dólares o rendimento econômico global. Isso é mais do que o rendimento acumulado dos Estado Unidos, Canadá e México juntos.

Como trabalhamos rumo aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para proporcionarmos energia limpa, acessível e eficiente para todas e todos, é claro que o mundo precisará de investimento maciços. Projeções indicam que o gasto futuro em infraestrutura energética somará um total de 37 trilhões de dólares.

Então, levando em conta a realidade do desemprego de jovens, poluição do ar e a mudança do clima, certamente é senso comum em colocar esse dinheiro onde irá criar mais empregos, oferecer um baixo custo para assistência médica e ter o maior impacto no aquecimento global.

Em outras palavras, faz sentido investir no combate à mudança do clima para um futuro sustentável.

Excelências,

Se nós queremos proteger florestas e a vida na terra, preservar nossos oceanos, criar enormes possibilidades econômicas, evitar perdas ainda maiores e melhorar a saúde e o bem-estar do planeta e das pessoas, nós temos uma simples opção que está à nossa frente.

Ação para o clima é uma necessidade. Também é uma oportunidade clara para avançarmos nossos esforços para alcançarmos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Como vamos proceder pode ser o assunto de debates políticos e científicos. Mas não há dúvidas de que devemos agir, urgentemente e decisivamente, agora.

Esse foi o veredito de todos os governos em Paris, em dezembro de 2015.

E continua a única forma viável de preservamos a paz, a prosperidade e o futuro sustentável.

Obrigado.

*Discurso proferido pelo Secretário Geral da ONU, António Guterres, durante o Encontro de Alto Nível sobre Mudança do Clima e a Agenda de Desenvolvimento Sustentável, em Nova York, EUA - 23/03/2017