A mudança global do clima é ameaça tanto para ricos quanto para pobres

13/out/2017

De Miami e Porto Rico a Barbuda e Havana, a devastação da temporada de furacões deste ano pela América Latina e o Caribe serve para lembrar que o impacto da mudança global do clima não conhece fronteiras. Foto: PNUD

Mensagem de Achim Steiner, Patricia Espinosa e Robert Glasser para o Dia Internacional para a Redução de Desastres

De Miami e Porto Rico a Barbuda e Havana, a devastação da temporada de furacões deste ano pela América Latina e o Caribe serve para lembrar que o impacto da mudança global do clima não conhece fronteiras.

Nas últimas semanas, furacões de Categoria 5 colocaram tiraram da rotina milhões de pessoas no Caribe e no continente americano. Harvey, Irma e Maria foram particularmente danosos. Os 3,4 milhões de habitantes de Porto Rico estão lutando por necessidades básicas, incluindo comida e água; a ilha de Barbuda tornou-se inabitável, e dezenas de pessoas estão desaparecidas ou mortas na ilha de Dominica, Patrimônio Mundial da UNESCO.

O impacto não se limita a essa região. Recorde de inundações em Bangladesh, Índia e Nepal tornaram a vida miserável para cerca de 40 milhões de pessoas. Mais de 1.200 pessoas morreram, e muitas outras perderam suas casas; plantações foram destruídas, e muitos locais de trabalho, inundados. Enquanto isso, na África, nos últimos 18 meses, 20 países declararam estado de emergência pela seca, com grandes deslocamentos ocorrendo em toda a região de Horn.

Para os países menos desenvolvidos, o impacto das catástrofes pode ser severo, eliminando meios de subsistência e avanços em saúde e educação; para países desenvolvidos e de renda média, as perdas econômicas, em termos de infraestrutura apenas, podem ser maciças; tanto para países desenvolvidos quanto para aqueles de renda média, esses eventos reiteram a necessidade de agir em relação à mudança do clima, que ameaça com desastres cada vez mais frequentes e severos.

Um sinal (chocante) do que ainda pode vir?

Os efeitos de um clima mais quente nos recentes eventos climáticos, tanto em termos de gravidade quanto de frequência, têm sido reveladores para muitos, até mesmo para a maioria esmagadora que aceita o fato de que a ciência se baseia no aquecimento global devido a fatores humanos.

Enquanto a catástrofe silenciosa de 4,2 milhões de pessoas que morrem prematuramente todos os anos por causa da poluição ambiental, principalmente relacionada ao uso de combustíveis fósseis, recebe relativamente pouca atenção da mídia, está cada vez mais nítida a consequência dos gases de efeito estufa, concentradores de calor, em eventos climáticos extremos.

Não poderia ser de outra forma quando o impacto desses eventos climáticos é tão profundo. Durante os últimos dois anos, mais de 40 milhões de pessoas, sobretudo nos países que menos contribuem para o aquecimento global, foram forçadas permanente ou temporariamente a deixar suas casas por causa de desastres.

Há um claro consenso: o aumento das temperaturas está aumentando a quantidade de vapor de água na atmosfera, levando a chuvas e inundações mais intensas em alguns lugares, e a secas em outros. Algumas áreas experimentam ambas, como foi o caso deste ano na Califórnia, onde um recorde de inundações seguiu-se a anos de seca intensa.

TOPEX/Poseidon, o primeiro satélite a medir com precisão o aumento do nível do mar, foi lançado duas semanas antes de o furacão Andrew ter atingido a Flórida 25 anos atrás. Essas mensurações registraram um aumento global de 3,4 milímetros por ano desde então. Isso representa um total de 85 milímetros em 25 anos, ou 3,34 polegadas.

O aquecimento e o aumento do nível dos mares estão contribuindo para a intensidade das tempestades tropicais em todo o mundo. Continuaremos a viver com as anormais e muitas vezes imprevistas consequências dos níveis existentes de gases de efeito estufa na atmosfera, por muitos e muitos anos.

Em 2009, a Swiss Re publicou um estudo de caso focado nos condados de Miami-Dade, Broward e Palm Beach, que previram um cenário moderado de aumento do nível do mar na década de 2030, o que coincide com o que já ocorreu hoje. Se uma tempestade na escala do furacão Andrew tivesse atingido esse rico nicho dos EUA hoje, o dano econômico seria de US$100 bilhões a US$300 bilhões. Agora, as estimativas sugerem que as perdas econômicas dos furacões Harvey, Irma e Maria podem vir a ultrapassar esses números.

Reduzir o risco de desastres agora; abordar as mudanças climáticas em longo prazo

Miami está envidando esforços para expandir seu programa de proteção contra inundações; US$400 milhões destinam-se a financiar bombas marítimas, estradas melhores e barragens. No entanto, esse nível de despesa está fora do alcance da maioria dos países de baixa e média renda, que podem perder significativas parcelas de seu PIB sempre que forem atingidos por inundações e tempestades.

Embora o Acordo de Paris tenha estabelecido para o mundo um caminho de longo prazo para um futuro com baixa emissão de carbono, esse é um caminho árduo, que reflete pragmatismo e realidades em cada país individualmente. Assim, enquanto a expectativa é de que as emissões de carbono se reduzam quando os países atingirem suas metas estabelecidas por eles próprios, o impacto da mudança do clima pode ser sentido por mais algum tempo, deixando o mundo com pouca escolha, senão investir, simultaneamente, nos esforços para se adaptar às mudanças do clima e na redução do risco de desastres. Os benefícios de fazer isso fazem sentido do ponto de vista econômico quando comparados aos custos de reconstrução.

Isso exigirá cooperação internacional em uma escala inédita, à medida que abordamos a tarefa fundamental de tornar o planeta um lugar mais resiliente para o efeito retardado das emissões de gases de efeito estufa que experimentaremos nos próximos anos. Restaurar o equilíbrio ecológico entre as emissões e a capacidade natural de absorção do planeta é o objetivo de longo prazo. É imperioso lembrar que a redução em longo prazo das emissões é a tática de redução de risco mais importante que temos, e devemos cumprir essa ambição.

A Conferência das Nações Unidas sobre Clima, em novembro próximo, em Bonn, presidida pela pequena ilha de Fiji, oferece uma oportunidade para não só acelerar as reduções de emissões, mas também aumentar o sério trabalho de garantir que a gestão do risco climático seja integrada no gerenciamento de riscos de desastres como um todo. A pobreza, a urbanização rápida, o uso inadequado da terra, o declínio dos ecossistemas e outros fatores de risco amplificarão os impactos das mudanças do clima. Hoje, no Dia Internacional para a Redução de Desastres, pedimos que eles sejam abordados de forma holística.

Achim Steiner é Administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento www.undp.org

Patricia Espinosa é Secretária Executiva de Mudança Global do Clima, da ONU www.unfccc.int

Robert Glasser é o Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para Redução do Risco de Desastres e Chefe do Escritório da ONU para Redução do Risco de Desastres www.unisdr.org.