“Por ser o país que mais recebe radiação solar no mundo, o Brasil é um dos maiores beneficiados pelo Protocolo de Montreal”, afirma doutora em geofísica espacial

25/out/2017

Foto: Kevin Gill/ Flickr

Doutora em geofísica espacial pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Damaris Kirsch Pinheiro atua há mais de 20 anos no desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao ozônio atmosférico, radiação ultravioleta, aerossóis e dióxido de nitrogênio atmosférico.

Em 2014, ela foi convidada para ser revisora do Assessment Report, relatório produzido pelo Painel de Avaliação Científica do Protocolo de Montreal. Atualmente, Damaris Pinheiro é coordenadora do curso de graduação em engenharia química da Universidade Federal de Santa Maria (UDFM), no Rio Grande do Sul.

Em entrevista exclusiva aos parceiros do Protocolo de Montreal no Brasil[1], a professora falou sobre o Assessment Report, a produção brasileira de pesquisa científica sobre o ozônio e o sucesso da implementação do Protocolo de Montreal.

O que é o Painel de Avaliação Científica (SAP, na sigla em inglês) do Protocolo de Montreal e qual a importância do SAP Assessment Report para a comunidade científica e para a sociedade?

Esse painel tem uma função técnico-científica extremamente importante. Eles coordenam as atividades científicas de pesquisa de praticamente todos os pesquisadores de ozônio do mundo, porque o painel é responsável pela emissão do Assessment Report, que a cada quatro anos balisa as pesquisas em ozônio. Esse relatório trata de todas as novidades desenvolvidas em termos de pesquisa científica na área de ozônio e radiação ultravioleta. Agora, estamos trabalhando para lançar em 2018 um novo relatório.

A senhora pode adiantar quais serão as principais discussões e resultados apontados no próximo Assessment Report?

Eu já tenho acesso às informações dos tópicos gerais. Serão abordados os gases que destroem a camada de ozônio, com um tópico específico sobre eles. Nossa preocupação atual, para os pesquisadores, não é mais só o CFC, pois o Protocolo de Montreal está controlando esses gases que destroem a camada de ozônio de forma extremamente bem-sucedida. Há outros gases somados a essa lista. A Emenda de Kigali, por exemplo, colocou os HFCs como gases a serem controlados. O HFC não tem cloro, então não destrói o ozônio, mas, em compensação, tem um forte potencial de aquecimento global. Ele interferiria no efeito estufa e na mudança do clima.

Um problema atual, que provavelmente será colocado no relatório, é a discrepância de dados entre o inventário apresentado pelos países e o que é medido na atmosfera. Em vários lugares, há uma discrepância muito grande entre o que os países estão dizendo que emitem e o que estamos vendo na realidade. Na atmosfera, há muito mais desses gases do que é declarado.

Outro capítulo, que sempre há no Relatório, é sobre a situação atual da camada de ozônio. Vamos ter também um capítulo específico, que é uma novidade, sobre a relação entre ozônio e mudança do clima, porque temos uma via de mão dupla: tanto a camada de ozônio tem certa influência na mudança do clima, como também a mudança do clima tem uma influência sobre a camada de ozônio. Para o Brasil, inclusive, essa influência é extremamente importante.

Como é essa relação de influência entre a mudança do clima e a camada de ozônio?

Ainda não temos medidas concretas, apenas projeções, mas essas simulações já preocupam a comunidade científica brasileira. Se continuarmos com o processo de mudança do clima e o provável aquecimento global, o que vai acontecer é uma aceleração da circulação de Brewer-Dobson. A circulação de Brewer-Dobson é extremamente importante para a camada de ozônio, pois ela distribui o ozônio no planeta na estratosfera. A produção de ozônio é muito ativa entre o Equador e os trópicos, porque é o local que tem mais radiação. O ozônio é produzido através da radiação ultravioleta, que quebra a molécula de Oxigênio (O2), liberando um átomo de O, que reage com outra molécula de O2, formando o O3, que é o ozônio. Então, esssa circulação leva o ozônio produzido na região do Equador para os polos, distribuindo-o globalmente.

O que causa a circulação de Brewer-Dobson é que o ar na região do Equador fica muito quente na troposfera, levando-o a subir. Nesse processo, ele entra na estratosfera e empurra o ar nessa região. Na estratosfera, o ar quente não sobe mais, porque o ar acima dele está mais quente ainda. Então, na estratosfera, o impulso que vem da superfície terrestre na camada de ozônio acaba sendo na horizontal, fazendo com que o ozônio do Equador vá em direção aos polos.

Quando há um aquecimento muito intenso, no caso do aquecimento global, isso acelera a circulação. Se essa circulação se acelerar porque está mais quente embaixo e o ar mais quente sobe com mais força, ele vai ter mais energia para subir. Então, lá em cima, na estratosfera, também vai ter mais energia para o ar circular mais rapidamente para os polos, dissipando a camada de ozônio na região do Equador.

Como seu trabalho e pesquisa no Brasil se conciliam com os objetivos do Protocolo de Montreal e com sua atuação no Painel de Avaliação Científica?

O trabalho que a gente desenvolve no sul do Brasil é realizado por um grupo de pesquisadores do Centro Regional Sul do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), do Nordeste e também do Pará. Desde 1992, realizamos pesquisa em ozônio na região. A gente monitora a camada de ozônio aqui. Um dos primeiros artigos que desenvolvemos é que existe uma influência do buraco de ozônio da Antártida sobre a nossa região. Não é o buraco em si, é o que chamamos de efeito secundário. A cada certo período, o buraco libera uma massa de ar que pode viajar centenas e até milhares de quilômetros. Mostramos, então, que essas massas de ar podem chegar na nossa região, diminuindo a camada de ozônio no sul do Brasil. Esse efeito secundário acontece de uma a cinco vezes ao ano. Nos últimos anos, está sendo mais frequente. Cada vez que chega essa massa de ar com pouco ozônio, ela se mistura com a nossa camada de ozônio, que é uma camada de dimensões normais. Nesse período, temos uma diminuição da nossa camada, que chega a 10%, mas já foram registradas diminuições de mais de 20%.

Outro dado que obtivemos é que, a cada 1% de queda de ozônio, há um aumento médio, ao longo do dia, de 1,2% da radiação ultravioleta na região. Então, diminuindo 10% do ozônio, há um aumento de 12% da radiação ultravioleta. Isso acontece de agosto a dezembro, época em que o buraco da camada de ozônio está aberto na Antártida. Apesar de o efeito secundário da camada de ozônio durar pouco tempo, de dois a três dias, se estivermos, por exemplo, em época de plantação, pode dar uma quebra de safra, então é bem perigoso. Adicionalmente, nesse período, há necessidade de conscientizar a população quanto à necessidade de se proteger ainda mais contra os raios solares. Normalmente, esse efeito atinge o sul do Brasil, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas já houve registros também no Paraná e em São Paulo.

Como a senhora avalia os 30 anos do Protocolo de Montreal e a contribuição do Brasil ao longo dessas décadas para a proteção da camada de ozônio?

O Protocolo de Montreal é o protocolo ambiental mais bem-sucedido de toda a ONU. Ele se propôs a diminuir as emissões de uma lista de gases e tem conseguido atingir suas metas. Entre as décadas de 1980 e de 1990, estávamos observando uma diminuição no ozônio estratosférico, principalmente em determinadas regiões de média latitude do hemisfério sul. As reduções chegaram a 6% de ozônio em relação às medições da década de 1970. Essa redução parou. Isso é o mais importante resultado do Protocolo de Montreal: ele parou a redução global da camada de ozônio. Já no final da década de 1990, conseguimos observar essa recuperação, e estudos indicaram a estabilização do tamanho do buraco da camada de ozônio. Em alguns locais, já se viu uma recuperação total da camada aos níveis pré-década de 1970, como no Equador. Para nossa região no hemisfério sul, ainda não houve uma recuperação total, mas acreditamos que agora é só uma questão de tempo para a camada se recuperar completamente até os níveis pré-década de 1970.

Eu acredito ainda que o Protocolo de Montreal, nesses 30 anos, foi extremamente importante para a proteção da população. Nós teríamos, atualmente, em algumas simulações, se não houvesse o Protocolo de Montreal, índices de radiação ultravioleta de quase 20, de um índice que foi criado para variar de 0 a 15. Imagine que, no Brasil, temos índice extremo praticamente todo o período de verão. O Brasil é o país que mais recebe incidência de radiação do mundo, justamente por ser um país continental, praticamente todo entre o Equador e trópico. Se não fosse o Protocolo de Montreal, teríamos índices de radiação muito mais altos, então o número de câncer de pele seria muito maior. O problema de quebra de safra teria sido muito grande, porque as sementes não estão preparadas para radiação em excesso que poderíamos ter. Teríamos perda de algumas espécies de plantas e animais que têm susceptibilidade à alta radiação. A existência do Protocolo, para o Brasil, por sermos um país que mais recebe a radiação do mundo, é extremamente importante. 


[1] No Brasil, o PNUD atua como agência líder implementadora do Protocolo de Montreal. A coordenação de sua implementação no país é do Ministério do Meio Ambiente, e a Agência de Cooperação Alemã GIZ e Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) atuam como agências implementadoras.


 
 
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Damaris Kirsch Pinheiro é Doutora em geofísica espacial pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e atua há mais de 20 anos no desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao ozônio atmosférico, radiação ultravioleta, aerossóis e dióxido de nitrogênio atmosférico. Atualmente, Damaris Pinheiro é coordenadora do curso de graduação em engenharia química da Universidade Federal de Santa Maria (UDFM), no Rio Grande do Sul.