Gênero, gestão de desastres e mudança

14/nov/2017

Na maioria dos casos, os desastres constituem uma carga adicional para mulheres e meninas, pois é sobre elas que recai a responsabilidade do trabalho não remunerado. Foto: Monica Suárez/PNUD Peru

A gestão do risco da mudança do clima está adquirindo uma nova urgência para os formuladores de políticas públicas, bem como para aqueles que estão na linha de frente a nível comunitário. As conexões entre a mudança global do clima e o aumento da incidência de furacões, secas, inundações massivas, fenômenos destrutivos semelhantes e as consequentes perdas humanas e materiais agora se tornam mais evidentes.

A temporada de furacões de 2017 no Atlântico foi extremamente ativa e intensa e deixou destruição sem precedentes na região do Caribe. Destacam-se o furacão Irma, categoria 5, com uma força nunca registrada no Atlântico, e o furacão Maria, também categoria 5. Ambos cruzaram um número extraordinário de ilhas, expondo uma população de 32 milhões de pessoas a ventos de alta velocidade e deixando registros de danos superiores a 193 bilhões de dólares.

Essas ameaças de alta intensidade demonstraram mais uma vez os níveis de alta vulnerabilidade em que vive expressiva parcela da população da América Latina e do Caribe e lembram a necessidade de um melhor planejamento do desenvolvimento, onde a gestão de riscos esteja interligada à gestão econômica, à coesão social e à gestão ambiental com base na equidade.

Mulheres, meninos e meninas são 14 vezes mais propensos que os homens a morrer durante um desastre. É por isso que esses eventos nos recordam de que é vital levar em conta a diferença de impacto em homens e mulheres, e o mesmo vale para grupos excluídos, como crianças, jovens ou idosos que tendem a ser desproporcionalmente afetados.

Para entender os riscos, é indispensável incorporar aspectos de gênero nas análises de vulnerabilidade e capacidade comunitária. Na maioria dos casos, os desastres causam um fardo adicional para mulheres e meninas, pois é sobre elas que recai a responsabilidade do trabalho não remunerado (provisão de cuidados, água e alimentos para famílias, entre outros), bem como as condições de pobreza, de acesso à educação e de participação na tomada de decisão política e doméstica tornam-se mais agudas. As desigualdades econômicas e sociais fazem com que as mulheres tenham menos recursos e meios, o que aumenta sua vulnerabilidade às ameaças; ainda que, em contraposição, tenham desenvolvido uma série de capacidades familiares e organizacionais que contribuem para o desenvolvimento da comunidade.

No PNUD, apoiamos essa abordagem de gênero, considerando-a fundamental para garantir a integração das diferentes necessidades de homens e mulheres em todo o espectro da gestão de risco de desastres e da recuperação. Também cabem esforços para envolver as mulheres nos processos técnicos e de tomada de decisões para que elas possam reconstruir um mundo mais seguro e uma sociedade mais inclusiva.

Por exemplo, nos processos de recuperação dos países caribenhos afetados após a passagem dos furacões Irma e Maria, o PNUD trabalha com uma abordagem de gênero o projeto e a execução das oportunidades temporárias de emprego emergencial para que mulheres e homens afetados possam ser capacitados, reconstruam suas casas, comunidades e infraestrutura local, tornando-se agentes de recuperação e assumindo um papel proativo, fornecendo sua experiência única e conhecimento local.

No Haiti, após a passagem do furacão Mathews, muitas mulheres encontraram-se em uma situação ainda mais precária, vendo seus meios de produção destruídos, acesso limitado a renda ou crédito, e muitas vezes assumindo o cuidado de familiares feridos. Com o apoio do PNUD e como parte da estratégia de recuperação após a passagem do ciclone, mais de 40 mulheres empresárias dos municípios mais afetados iniciaram um programa de capacitação para revitalização e fortalecimento de suas empresas.

No Peru, após as inundações recentes resultantes do El Niño costeiro, o PNUD, com financiamento do Departamento de Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO), promove uma iniciativa que reúne seis associações de artesãs, cerca de 250 mulheres, que, por meio da arte, reconstroem sua economia e comunidades após a emergência. Também como parte da estratégia de recuperação imediata e com foco nos lugares com mães chefes de família, implementou-se a metodologia “Dinheiro por trabalho”, para apoiar o retorno da população a suas casas e dar a elas um trabalho temporário. Por meio dessa iniciativa, as mulheres participaram da remoção segura de escombros e lama em casas e espaços comunitários, como restaurantes populares, postos médicos e parques, enquanto recuperavam seus meios de subsistência.

Cada emergência é uma oportunidade para recuperar melhor e planejar o desenvolvimento de forma mais efetiva, incorporando a redução de risco de desastres. Com o rápido desenvolvimento de nossa região, os riscos de desastres urbanos e naturais aumentam; por isso, é essencial para o futuro da América Latina e do Caribe considerar as diferentes habilidades das mulheres e homens afetados, de modo que cada uma e cada um,  com seu papel e suas características particulares, contribua para o desafio de alcançar melhores condições de segurança e resiliência.

Sobre a autora

Janire Zulaika é coordenadora do projeto DIPECHO para o Caribe na equipe de Gestão de Risco de Desastres, no Departamento de Desenvolvimento Sustentável e Resiliência do Centro Regional do PNUD para América Latina e Caribe.