Foto: Guilherme Larsen PNUD Brasil

Polpas de fruta lotavam os freezers da pequena agroindústria da comunidade Água Boa II, enquanto uma comitiva de pesquisadores estrangeiros, além de técnicos e parceiros do Projeto Bem Diverso usavam tocas higiênicas para acompanhar cada um dos processos – desde a lavagem da fruta até o empacotamento e rotulagem do produto. O beneficiamento das espécies do Cerrado tem transformado a vida de centenas de famílias na região. Acompanhar e conferir este e outros resultados da atuação do projeto no território foi o objetivo da missão, que aconteceu de 3 a 7 de março e percorreu municípios que abrigam as atividades do Bem Diverso no território Alto Rio Pardo, ao norte de Minas Gerais.

A viagem é parte do Projeto Diálogos Setoriais, que viabilizou a troca de experiências entre pesquisadores brasileiros e europeus, promovido pela União Europeia, Ministério da Economia, Ministério das Relações Exteriores e pelo Projeto Bem Diverso (PNUD/GEF/EMBRAPA).

A primeira parada foi o CAA/NM – Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, a Cooperativa Grande Sertão e a AEFA – Área de Experimentação e Formação em Agroecologia, em Montes Claros.

“Os produtos da sociobiodiversidade são processados dentro de um sistema que, além de gerar renda e garantir a segurança alimentar das comunidades rurais, conserva e preserva o Cerrado e a Caatinga, recupera nascentes e áreas degradadas, forma guardiões de sementes nativas e capacita e encoraja os jovens a permanecerem e viverem dos bens da terra”, declarou Álvaro Carrara, da coordenação do CAA/NM.

Educação no campo

Em Taiobeiras, na EFA – Escola Família Agrícola Nova Esperança - foi a vez de comprovar o fortalecimento das tradições e técnicas rurais passadas a jovens em curso técnico inserido na grade do ensino médio. Eles aprendem tecnologias sustentáveis para empregar nas comunidades em que vivem.

“Muitos jovens vão perdendo a identidade com o campo, achando que a roça e a produção de alimentos não são importantes e foi para ir contra isso que nasceu a EFA Nova Esperança, porque a educação no campo é direito”, explicou o diretor da escola, Josimar Almeida.

Para o finlandês Mikko Kurttila, cientista da Luke Natural Resources Institute Finland, o projeto é bem estruturado e está ajudando as comunidades a desenvolver suas atividades em bases sustentáveis. “Isso é excelente. O que eu aprendi com o Projeto Bem Diverso no Brasil é fazer o uso da biodiversidade priorizando a conservação, enquanto na Finlândia, nós não usamos a biodiversidade, a preocupação é apenas preservar”, disse.

Pequi daqui

Em todos os lugares que passou, a comitiva provava da alimentação à base de espécies locais, tanto in natura - como o pequi, a cagaita, o araticum – até os já beneficiados e com valor agregado, como o café especial sombreado Cacunda de Librina, de excelente qualidade, produzido em Sistemas Agro-florestais (SAFs) na comunidade Vereda Funda, em Rio Pardo de Minas, a cerveja artesanal de coquinho azedo da Grande Sertão; e ainda as polpas das inúmeras frutas do Cerrado produzidas pela COOPAAB – Cooperativa de Agricultores Agroextrativistas de Água Boa II.

O grupo acompanhou o trabalho dos coletores e restauradores do Cerrado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Nascentes Geraizeiras (Alto Rio Pardo) que contaram, com muito orgulho, como o projeto os incentiva a recuperar o bioma e os meios de vida das comunidades locais.

“O uso sustentável do Cerrado vem mudando a geração de renda de nossa comunidade. O trabalho contribui para a valorização das raízes locais e a permanência dos jovens no campo”, declarou a jovem restauradora Fabrícia Santarém.

No aspecto cultural, foram recebidos na RDS por um grupo de seresteiros com a tradicional Folia de Reis e Catira – dança folclórica regional, além de, em todos os lugares, terem como anfitriões uma gente aguerrida, amistosa e muito receptiva.

“O Bem Diverso contribui com a manutenção da biodiversidade de forma inclusiva, até porque essa promoção não faz sentido sem englobar as pessoas”, sinalizou Rui Ludovino, conselheiro da Delegação da União Europeia no Brasil. Ele salientou a importância do projeto no enfrentamento da mudança global do clima e da crise ecológica que o planeta enfrenta. “É preciso corroborar para o grande pacto verde estipulado globalmente”, complementou.

Consolidando parcerias

Para Dietrich Darr - professor de agribusiness da Hochschule Rhein-Waal University of Applied Sciences, na Alemanha, e Verina Ingram, da Wageningen University and Research (Países Baixos); a hora é de consolidar os produtos com investimento em crédito e em estratégias de marketing, para que possam manter a sustentabilidade da cadeia se tornando mais atraentes e ter acesso a crédito para alcançarem o mercado (nacional e internacional). “Estamos aqui para discutir com nossos colegas pesquisadores da Embrapa como podemos trabalhar juntos nessas questões”, declarou o alemão.

Já para a holandesa Verina, a forma com que a comunidade clama por suas terras e emprega o desenvolvimento sustentável é parecido com algumas populações que ela acompanha onde mora, em Camarões, na África.

“Parcerias são necessárias, aprender uns com os outros, compartilhar experiências e erros, especialmente, porque há muito foco no sucesso. Agora vejo a necessidade de investidores para os negócios e marketing para manter a sustentabilidade da cadeia, da produção aos consumidores”, disse ela.

Para Fernando Moretti, assessor técnico do PNUD, a estratégia do Seminário Internacional em Brasília e da Missão de Campo foi mostrar que o conhecimento acumulado tanto pelo Bem Diverso, quanto pelas experiências compartilhadas pelos pesquisadores e professores europeus serviu para identificar paralelos e possibilidades de colaboração e cooperação técnica entre os vários atores envolvidos. “A parceria entre os Projetos Diálogos Setoriais e Bem Diverso se mostrou bastante rica na promoção do intercâmbio de conhecimentos entre as diversas experiências nas áreas de extrativismo e conservação pelo uso sustentável, e agora trabalharemos para que esta parceria siga profícua, seja através de novos editais, pesquisas ou mesmo projetos”, disse Moretti.

O coordenador do Projeto Bem Diverso e pesquisador da Embrapa, Anderson Sevilha, destaca que os próximos passos serão justamente relacionados à formalização das parcerias institucionais com a Embrapa, o Bem Diverso, instituições e universidades envolvidas no Diálogos Setoriais, ou seja: escrever projetos para buscar recursos e dar continuidade ao trabalho em campo executado no território.

“A troca de experiências começou entre os pesquisadores, mas a ideia é que se amplie com o intercâmbio de estudantes, agricultores, extensionistas brasileiros e europeus, para que conheçam as diferentes realidades”, afirma Sevilha. Um ponto foi marcante em todas as falas: o complemento que o projeto traz em relação à pesquisa, já que o Bem Diverso é um projeto de desenvolvimento. “Isso chamou a atenção dos estrangeiros: a nossa capacidade de trazer a pesquisa voltada para o desenvolvimento local dessas comunidades”, finaliza o coordenador do Bem Diverso.

 

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