Mãe de Alessandro, de 1 ano, a marisqueira Tainize Silva dos Santos, de 21 anos, é moradora de Maragogipe (BA) e beneficiária do Programa Criança Feliz. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Assim como expressiva parcela da população brasileira, a vendedora ambulante Nereide Fernandes, de 49 anos, teve a vida fortemente afetada pela pandemia de COVID-19. Paranaense e moradora de São Paulo (SP), Fernandes perdeu o trabalho e passou a cuidar em casa da filha Melissa, de 2 anos, que tem síndrome de Down. 

Ela e o marido, o também vendedor ambulante Araciaene Ferreira, de 49 anos, enfrentaram dificuldades para comprar alimentos e pagar aluguel. A situação financeira complicada aliada ao estresse do isolamento e do medo da infecção contribuiu para derrubar o ânimo da família.  

A situação só se amenizou em meados de 2020, quando o casal passou a receber o auxílio emergencial do governo e a ajuda de ONGs e vizinhos. “Recebo doações de alimentos, de brinquedos. Ninguém é tão pobre que não possa ajudar o próximo”, conta Fernandes em entrevista ao PNUD.

As dificuldades do isolamento social também se aliviaram com a continuidade do Programa Criança Feliz, iniciativa do Ministério da Cidadania apoiada pela ONU Brasil com recursos do Fundo Conjunto para os ODS, que ajuda o desenvolvimento de crianças em situação de vulnerabilidade por meio de visitas domiciliares.

Na pandemia, o atendimento do Programa passou a ocorrer na porta das casas, com distanciamento físico e principalmente via internet e celular. Visitadores e supervisores treinados recomendam atividades e brincadeiras para estimular o desenvolvimento cognitivo, a coordenação motora e a comunicação das crianças. 

“Recebo de duas a três sugestões de atividades por semana, e as realizo todos os dias. Quando tenho dúvidas, envio mensagem para a visitadora”, conta Fernandes, que utiliza a internet fixa de uma vizinha em troca de cuidar da filha dela ao longo do dia.

A vendedora ambulante Nereide Fernandes, de 49 anos, teve a vida fortemente afetada pela pandemia de COVID-19. Crédito da foto: Acervo Pessoal 

Na opinião de Fernandes, o Programa contribui para organizar a rotina da filha na pandemia e fazer com que ela continue se desenvolvendo, mesmo em situação de isolamento social e dificuldades financeiras na família.

“Muitas vezes, a gente tem dúvidas sobre como cuidar da Melissa por causa da síndrome de Down. Mas aprendemos com o Criança Feliz que ela é totalmente independente. Basta um pouquinho de paciência para explicar e ensinar”, ressalta.

“Fazer as atividades é muito bom porque passa o tempo, enquanto cuidamos da criança. É positivo para a gente também, porque ajuda a melhorar o clima em casa”, declara a beneficiária, cujo marido recebe tratamento para transtorno neurológico, que se intensificou no período de isolamento.

O Programa Criança Feliz tem contribuído para o desenvolvimento de Melissa, 2 anos. Crédito da foto: Acervo Pessoal

A marisqueira Tainize Silva dos Santos, de 21 anos, é moradora de Maragogipe (BA) e também beneficiária do Programa Criança Feliz. Mãe de Alessandro, de 1 ano e meio, ela conta com o apoio da avó do menino para conciliar o trabalho de capturar mariscos e cuidar da casa e do filho.

Na pandemia, as vendas do produto caíram muito e, atualmente, ela extrai mariscos somente para o consumo da família.  Habitando uma residência de dois ambientes, Santos afirma realizar as atividades sugeridas pelo Criança Feliz todos os dias.

“Só tenho tempo à noite porque, durante o dia, eu organizo a casa, vou para a ‘maré’. Mas o Alessandro está evoluindo bem. O programa ajudou bastante, porque a criança se sente incentivada. Ele ficou mais perspicaz, começou a segurar o lápis e a pintar sozinho.”

Os kits distribuídos aos beneficiários incluem itens como lápis de cor, papéis, bolas, tintas, massinhas de modelar, entre outros. A iniciativa atende cerca de 900 mil crianças em quase 3 mil municípios brasileiros.

Pesquisa divulgada em janeiro no escopo de projeto do PNUD com a Fundação Bernard van Leer mostrou que, mesmo com as dificuldades criadas pela pandemia, o Criança Feliz continua sendo bem avaliado pelas famílias atendidas.

O estudo conduziu 128 entrevistas no ano passado com supervisores, visitadores, cuidadores, familiares e lideranças locais de seis municípios: Maragogipe (BA), Governador Mangabeira (BA), Salinas (MG), Capitão Enéas (MG), Tocantinópolis (TO) e São Paulo (SP).

Entre as principais conclusões, o relatório indicou que houve melhora na capacidade de comunicação de cuidadores com as crianças, intensificação dos vínculos familiares e maior percepção sobre a importância dos estímulos para o desenvolvimento infantil.

Entre os desafios citados estão indisponibilidade de tempo — principalmente devido à sobrecarga de trabalho para as mães —, a falta de espaço nas residências e o baixo engajamento dos homens nas brincadeiras sugeridas.

Desde o início da pandemia, as famílias beneficiárias tiveram que fazer uma série de adaptações em sua rotina, uma vez que as atividades antes conduzidas pelos visitadores passaram a ser feitas por mães, pais e cuidadores.

“A gente se vira para fazer as brincadeiras na nossa casa, que é bem pequena. Amarramos uma cadeira na outra com o varal e colocamos prendedores coloridos. Aí falamos para ela pegar um prendedor de cada cor”, diz Fernandes.

“Também usamos papelão para recortar e pintar. Temos, inclusive, uma tarefa para fazer agora: ajudar a Melissa a identificar uma caixa cheia, uma vazia. Outra atividade serve para estimular a sensibilidade, fazê-la sentir o seco e o molhado, o quente e o frio”, relata.

Assista ao vídeo da brincadeira

Mesmo com o bom andamento das atividades recomendadas pelo Programa Criança Feliz, tanto Fernandes quanto Santos afirmam preferir as visitas presenciais, uma vez que estas intensificam a interação das crianças com outras pessoas para além do núcleo familiar.

“Hoje os visitadores me entregam o kit pessoalmente, mas com distanciamento. Dessa forma, é bom, mas com a visita voltando a ser presencial seria melhor, porque a criança interage, conversa mais”, afirma Santos, consciente de que isso só será possível no pós-pandemia.

“Não é fácil, mas adaptamos tudo. Sabemos que a nossa filha precisa desse apoio, então, também temos que fazer um esforço”, ressalva Fernandes.

A vendedora ambulante lembra com afeição de um momento, antes da pandemia, quando o visitador do Programa criou um teatro de bonecos na cozinha de casa.  “Ele montou tudo com caixa de papelão, trouxe os bonecos e contou muitas histórias para a Melissa”, rememora. “Nossa, ela ficou totalmente encantada!”

Sobre o Fundo Conjunto para os ODS

O Fundo Conjunto para os ODS (Joint SDG Fund) é um programa das Nações Unidas que, no Brasil, busca fortalecer os serviços públicos direcionados à primeira infância por meio do apoio ao Programa Criança Feliz. Tem como meta incentivar os países a acelerar o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da Agenda 2030.

As agências parceiras do programa no país são Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e ONU Mulheres.

Para a ONU Brasil, as intervenções integradas na primeira infância são cruciais para melhorar a vida das famílias e comunidades. O investimento no desenvolvimento infantil é uma das estratégias mais eficientes para um país eliminar a extrema pobreza, promover o crescimento econômico inclusivo e ampliar a igualdade de oportunidades.

Nesse sentido, o Fundo Conjunto para os ODS tem como meta aumentar a participação e retenção dos municípios elegíveis ao Programa Criança Feliz; ampliar o número de beneficiários; fortalecer as capacidades dos profissionais e a qualidade das intervenções multissetoriais e apoiar o Ministério da Cidadania nas intervenções e ações voltadas às crianças e gestantes.

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